Entrevista: ser TO autista em Feira de Santana
Bruno Garcez, TO em Feira de Santana, conta como o diagnóstico tardio de TEA mudou sua prática clínica e o cuidado com pacientes neurodivergentes.
Bruno Garcez é terapeuta ocupacional em Feira de Santana, fundador da Recomeçar Vida e Saúde. Aos 30 e poucos anos recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesta entrevista, ele fala sobre como a descoberta tardia mudou sua prática clínica, sua rotina e o cuidado com pacientes neurodivergentes.
Nota: as respostas pessoais abaixo são de Bruno Garcez, em revisão final antes da publicação.
Como foi receber o diagnóstico de TEA na vida adulta?
Primeiramente, muito colegas ao meu redor me chamavam de "autista" como se fosse sinônimo de esquisito ou diferente — algo pejorativo. Por isso, eu não aceitava. Sempre soube que tinha algo diferente, mas foi o embate constante com pessoas preconceituosas que foi me exaurindo. Elas exigiam que eu tentasse ser uma pessoa que eu não era: não necessariamente melhor, apenas alguém que aparentasse uma "normalidade" que não existe.
O diagnóstico de TEA veio aos 33 anos, quando percebi que essas diferenças me tornavam disfuncional no trabalho e afetavam minhas relações — especialmente com pessoas que me oprimiam de alguma forma. O mais difícil foi ver que colegas, psicólogos e outros terapeutas ocupacionais, que trabalham dia e noite com autismo, não sabiam conviver com as diferenças de um "autista que deu certo". Aparentemente, eu teria um lugar no mundo, e não era o da normalidade. Não era de alguém que estudou, que tem emprego, que é bom no que faz. Receber o diagnóstico tardio foi, ao mesmo tempo, um alívio e uma dor: finalmente havia um nome para o que eu sentia, mas também havia muito prejuízo já acumulado.
O que mudou na prática clínica depois do diagnóstico?
Muita coisa fez sentido em retrospecto. Ler com atenção sinais sensoriais, padrões de comunicação e particularidades de rotina deixou de ser um esforço técnico e passou a ser também uma forma de reconhecimento. A literatura sobre o chamado double empathy problem (Milton, 2012) descreve bem isso: a dificuldade de comunicação entre pessoas autistas e não autistas é mútua, não um déficit unilateral. Quando o profissional também é autista, parte dessa barreira diminui — especialmente com crianças e adolescentes neurodivergentes, que costumam sentir quando estão sendo lidos com julgamento ou com curiosidade respeitosa.
O que o TEA atrapalha no seu dia a dia profissional?
Como terapeuta ocupacional em Feira de Santana, eu preciso trabalhar com integração sensorial e estimulação sensorial — mas nem sempre consigo pegar em certas texturas, nem suporto ruídos muito altos ou repetitivos. Essas são, talvez, minhas principais dificuldades na clínica. Além disso, a comunicação com os pais exige muito de mim: envolve expectativas, ansiedades, e demanda que eu modele cada palavra, que eu tente inibir a minha sinceridade para não magoar ou afetar as esperanças de ninguém.
Também sou péssimo em seguir burocracia que julgo desnecessária — aquela que não faz sentido, que não se enquadra em nenhuma lógica. Mudanças deliberadas que afetam meu trabalho, sem consulta ou justificativa, são especialmente difíceis. O TEA não me impede de ser um bom profissional, mas me obriga a construir estratégias para lidar com um ambiente clínico que, muitas vezes, não foi pensado para corpos e mentes neurodivergentes.
E o que o TEA favorece?
Há um corpo crescente de evidências sobre pontos fortes recorrentes em adultos autistas: atenção sustentada a detalhes, raciocínio sistemático, fidelidade a protocolos, memória episódica para informação técnica e foco profundo em interesses (Russell et al., 2019, Molecular Autism). Na clínica, isso costuma se traduzir em raciocínio diagnóstico cuidadoso, registros minuciosos, baixa tolerância para imprecisão e uma ética profissional bem definida. Não é um superpoder — é um perfil cognitivo com custos e benefícios.
Já sofreu preconceito por ser autista?
O preconceito é algo que eu tive que me acostumar desde criança, em casa, onde não havia ciência sobre o autismo e sempre me trataram como alguém diferente — um estranho no ninho. Não foi diferente na escola. Depois, na faculdade, me lembro de colegas que hoje são terapeutas ocupacionais como eu me mandando calar a boca, na frente de todo mundo.
O "cala a boca" se repetiu na vida profissional. Minhas opiniões foram desqualificadas em público, por colegas que ora disputavam comigo, ora me perseguiam. Talvez minha fala pudesse parecer arrogante para eles, ou talvez parecesse que eu achava que sabia tudo. Mas talvez eu apenas estivesse em hiperfoco naquele assunto e tivesse dificuldade de controlar o impulso de falar sobre algo que eu gostava muito. O preconceito contra o autista que fala demais, que pensa de forma intensa, que não segue o ritmo social esperado, é silencioso e constante. Ele se esconde em piadas, em olhares, em exclusões de convivência. Reconhecer isso faz parte do processo de se tornar não apenas um profissional melhor, mas uma pessoa mais inteira.
Como isso muda a forma de atender pacientes autistas e suas famílias?
O primeiro impacto é em como conduzo a anamnese. Pergunto sobre sensorialidade do mesmo jeito que pergunto sobre sono ou alimentação: ruído, luz, textura de roupa, temperatura. Evito linguagem patologizante quando não é necessária — "ele gosta de alinhar carrinhos" comunica melhor que "apresenta comportamento estereotipado restritivo". Também sou direto com pais sobre o que a literatura sustenta hoje: a meta não é "tornar a criança menos autista", e sim ampliar autonomia, comunicação e bem-estar — em linha com o consenso de organizações como a Autistic Self Advocacy Network e revisões recentes em Lancet Psychiatry sobre intervenções centradas na criança.
Sobre diagnóstico tardio: por que tanta gente só descobre na vida adulta?
Três fatores se somam. Primeiro, os critérios diagnósticos mudaram bastante — só em 2013, com o DSM-5, o espectro foi unificado. Segundo, mulheres e pessoas com QI preservado historicamente passam despercebidas porque desenvolvem masking (camuflagem social), um padrão associado a exaustão e depressão (Hull et al., 2017, Journal of Autism and Developmental Disorders). Terceiro, no Brasil ainda há poucos serviços públicos preparados para avaliar adultos. Resultado: muita gente chega aos 30, 40 anos sentindo que "algo nunca encaixou" e só obtém uma explicação depois de uma investigação ativa.
Que conselho daria a um adulto que suspeita ser autista?
Procurar avaliação com profissional experiente em adultos — psiquiatra, neuropsicólogo ou equipe multiprofissional — e desconfiar de diagnóstico fechado em uma única consulta de 30 minutos. Triagens validadas como AQ-10 e RAADS-R servem de ponto de partida, não de conclusão. E, independentemente do resultado, vale conversar com terapeuta ocupacional sobre rotina, sensorialidade e ocupações: muita coisa pode melhorar mesmo antes de qualquer diagnóstico formal.
Como esse olhar se reflete na Recomeçar?
Adaptamos o ambiente (iluminação, ruído, materiais), oferecemos atendimento individual e em pequenos grupos, e trabalhamos junto com escolas e famílias. Em Feira de Santana, ainda faltam serviços especializados em TEA em adultos — é uma frente que pretendemos consolidar nos próximos anos.
Fontes citadas
- Milton, D. (2012). On the ontological status of autism: the 'double empathy problem'. Disability & Society, 27(6).
- Russell, G. et al. (2019). Mapping the autistic advantage from the accounts of adults diagnosed with autism. Molecular Autism, 10:5.
- Hull, L. et al. (2017). "Putting on My Best Normal": Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. JADD, 47.
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR, 2022.
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